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A vida de quem se dedica a cuidar dos animais de rua

Mal dá 6:00 da manhã e a aposentada Maria Lúcia de Oliveira, 65, já está de pé. Tarefa, assim que acorda, é cuidar dos mais de 35 gatos que tem em casa, fora os que lá visitam costumeiramente. A rotina da manhã inclui botar comida para quem ela chama de “bichanos”, com todo o amor, trocar a água e limpar a casa, que é toda deles, afirma.

“Eles não têm voz, então a gente tem que dar a voz para eles. Temos que cuidar com amor, dedicação, carinho. Não é só pegar o bicho e colocar água ou comida. Você tem que se dedicar mesmo. Tem que participar, dar carinho, atenção”, explica a carioca, que se fixou em terras natalenses, com toda a emoção no olhar ao ver seu bichano passar por entre seus pés na hora.

Lúcia, como conhecida pelas amigas do Centro Espírita no qual frequenta, é somente uma das várias heroínas do cotidiano natalense que dedicam a sua vida para cuidar de animais resgatados da rua. Já teve, em sua casa, mais de 100 gatos, mas, agora, após alguns morrerem pela idade, doenças ou serem adotados para outras famílias, cuida, “somente”, como ela cita, de 35.

Sua história com os gatos de rua começou há seis anos, quando passou a cuidar de uns animais que havia num terreno próximo a onde morava. “Eu vendo aquilo ali fiquei sensibilizada”, comenta, Lúcia, sobre os gatos que estavam abandonados à mercê dos maus-tratos de alguns moradores das adjacências.

Esse abrigo é um dos muitos que não são listados, oficialmente, nem conhecidos, mas existem, em Natal, e visam cuidar dos animais em situação de rua, ajudando com a questão da superpopulação existente na cidade. O problema, no entanto, é muito maior: segundo dados da Associação de Proteção aos Animais (Aspan), a região metropolitana, em 2016, tinha uma população de animais de rua que ultrapassa dos 30 mil. Hoje, esse número pode ser muito maior.

Espalhados por toda a cidade, em especial nas regiões do Campus da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), esses animais representam um grande perigo à saúde pública, pois podem portar inúmeras doenças - algumas até sem cura, tanto para eles próprios, como para os humanos.

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CASTRAMÓVEIS

A Prefeitura de Natal, com um investimento de mais de 420 mil reais, adquiriu dois castramóveis para atuar no combate à enorme reprodução dos animais de rua. Essa aquisição, realizada em 2016, tinha como intuito realizar, diariamente, 50 cirurgias de castração. Desde janeiro de 2016, no entanto, o serviço está parado, sem realizar nenhuma castração de animais. A justificativa é devido a impasses ocorridos entre a administração do projeto, que impediu a circulação dos carros pela cidade.

SOLUÇÕES

A realidade dos castramóveis de Natal continua a mesma: carros estão parados e a população de animais cada vez maior. Soluções externas à prefeitura, que se porta passiva à questão, estão sendo tomadas por algumas ONGs de proteção aos animais. A exemplo de Lúcia, bem como de outros abrigos de animais, há inúmeras figuras esquecidas pelo cotidiano da cidade que tentam romper o silenciamento existente nessa questão dos animais de rua por parte da população e da prefeitura.

Divulgações em páginas, campanhas de arrecadação e até festivais são realizados para angariar ajuda no tratamento desses animais. É como anda fazendo Nilza Marina Rebouças, 59, com o ‘FestivAU MIAU’.

Na sua 35º edição, o evento traz a proposta de uma tarde de muita solidariedade e samba, com convidados especiais, visando arrecadar ajuda financeira para campanha de castração de animais de rua levantada pela Nilza.

“Em cinco anos, um casal de felinos reproduz até 12 mil filhotes. Em 10 anos, 80 mil. Então nós temos que castrá-los. É uma questão de saúde pública, porque várias doenças podem passar para os humanos”, reclama Nilza


Desde sua primeira edição, o ‘FestivAU’ já castrou mais de 6 mil animais de rua. “Já que não existe uma ação política do governo para fazer essas castrações, o ‘FestivAU’ dá uma ajuda”. Toda a bilheteria do evento é usada para salvar a população e os próprios animais dos problemas advindos com a superlotação.